Bem Vindo

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quarta-feira, 26 de março de 2014

Bíblia Para Quilombolas Analfabetos




Chamem-me de louco. Mas sou um desses que dão literatura para analfabetos. Não uma literatura qualquer. Mas sim a Bíblia. Porquê isso? Porque penso que o Espírito Santo pode ensinar a ler. Já ouvi tantas histórias a respeitos de pessoas que aprenderam a ler sozinhas na bíblia. E não só isso, penso que sempre pode acontecer de alguém se dispor a ler para um analfabeto.
É isso que faço quando de passagem pela casa da irmã Eva, que mora no Vão de Alma. Não é meu caminho habitual, mas quando passo por lá e ela está em casa, ela sempre me pede para ler a Bíblia. Por isso que distribuo bíblias no quilombo. Penso que depois pode vir outro missionário e fazer o mesmo.
Penso que foi por isso que certa feita pude ler a bíblia para uma senhora lá na Maiadinha. A Maiadinha  por ser um lugar mais interior ao quilombo, tem ou teve pouca presença missionária. Creio que os primeiros a chegarem lá, pelos bate-papos que tive, foram Asas de Socorro. Não sei se a senhora para a qual li a bíblia recebeu-a de Asas. Não fiz nenhuma pergunta de como ela conseguiu as escrituras de tão impressionado que fiquei com a ação dela. Como disse eu li a Bíblia para essa Senhora, e não fiz nenhuma pergunta de como ela conseguiu a bíblia porquê fiquei impressionado pelo tempo em que ela estava andando para chegar a casa de uma pessoa que pudesse ler para ela. Ela havia saído de casa por volta das 06:00 hs da manhã, e já passavam de meio-dia quando a encontrei. Quando a questionei para onde estava indo, ela disse-me que ia na casa de uma jovem um pouco adiante, para que essa jovem pudesse ler a bíblia para ela. Acontece que a jovem não estava em casa, eu havia acabado de passar pela casa que ela citou. Não tive alternativa, apesar do cansaço, estava no meu terceiro dia de caminhada, entrando na Maiadinha, voltei para ler para ela.
Quando, na cidade, você vê alguém caminhar mais de seis horas no lombo de um burro, para ouvir a palavra de Deus. É por isso que dou e  incentivo outros  missionários a darem bíblias a analfabetos. O próprio Espírito Santo pode ensiná-los a ler. Nós podemos ler para eles. E também podemos ensiná-los a ler na própria bíblia, como ensina o Pastor Gilberto Stevão do http://www.alfabetizacaopelabiblia.com.br/.

Natanael Dias

domingo, 9 de março de 2014

Um lugar do Quilombo Chamado Maiadinha

O quilombo Kalunga possui em seu território entre os vãos de serra diversas comunidades. Entre elas temos a comunidade da Maiadinha no Vão do Moleque.  Penso que a Maiadinha é um dos lugares mais centrais do quilombo. A primeira vez que cheguei lá, levei dois dias de caminhada, após ter recebido uma carona de 70 Km de carro.
Essa primeira entrada fiz pela cidade de Cavalcante, entrei de carona com um carro da prefeitura que foi realizar um serviço em uma região um pouco antes.
Quando falei com eles onde desejava chegar caminhando logicamente eles me acharam louco, e descobri que havia levado pouca comida. Era uma viagem de pesquisa, começou em uma segunda-feira,  esperava percorrer a distância entre Cavalcante e o rio Paranã no máximo até sábado. Foi essa orientação que dei a Simone debruçado sobre o mapa e fazendo os cálculos de acordo com a escala conseguida na régua. Disse: “Se não chegar em casa até o sábado, envie os demais missionários atrás de mim por esse caminho, que devo estar nessa região”.
Entrei com essa equipe na segunda a tarde, e na manhã de terça-feira, penalizados com o caminho que teria ainda pela frente, ofereceram uma carona por mais de uma hora de carro. Estrada de terra. Mas, mesmo assim avancei bastante em meu caminho.
Nesse dia caminhei das 08:00 às 12:00 quando avistei a primeira casa quilombola. Até as 17:00 hs, recordo-me que encontrei somente mais duas casas em minha caminhada. A terceira casa que encontrei, foi a que escolhi para esticar a rede.

Havia alguns quilombolas assentados numa roda, quando me aproximei, e me apresentei. Disse de onde vinha. Mostrei fotos dos quilombolas da região do tinguizal com os quais já me relacionava há algum tempo. O evangelho já estava implantado no tinguizal há algum tempo, por isso tive a necessidade de entrar mais no quilombo. O tinguizal e os demais pontos do quilombo que já contavam com presença missionária, estavam a no máximo um dia de caminhada de uma entrada do quilombo. Nosso pensamento é que todo e qualquer quilombola que saísse do quilombo teria que passar por uma dessas entradas e poderia em algum momento ter contato com o evangelho, o único problema em nosso plano é que os quilombolas que estavam mais no interior só saíam de lá quando estavam quase morrendo, os seja, só saíam muito raramente. Então comecei a orar por esses mapas já com anseio de chegar ao centro do quilombo. Outro dia conto essa história.
Mas voltando a roda quilombola, uma das curiosidades era se eu sabia para que lado estava a cidade. Puxei o mapa, peguei a bussola, olhei o sol, os pontos de referencia e apontei o lado da cidade. Ficaram surpresos por eu ter acertado. Conversamos e depois que disse para onde ia, um deles se ofereceu para no próximo dia me servir de guia e ainda me servir com um burro.
Esse guia me foi útil, pois ao fazer-me chegar ao meu destino, fez-me também descobrir como chegar ao local chamado Maiadinha com apenas três dia de caminhada.

A Maiadinha não é exatamente o centro do quilombo, está a mais de 100 km da cidade de Cavalcante, que é a cidade que tem estrada para lá. Talvez o seja a Capela, que é tão somente um local de festejos. Mas, a Maiadinha sim é um local bastante populoso, pelo mapeamento da antiga Sucam, lá existem 32 casas, eu, em minhas diversas investidas, avistei 19 casas, das quais 05 são visitadas com periodicidade. A entrada como é feita a pé, é feito pelo Paranã, passando pelo Vão de Alma, Riachão, atravessando o rio em Preto e no terceiro dia chegando a Maiadinha. 

domingo, 2 de março de 2014

REPLICANDO AS DORES, PARA QUÊ?

O que falar a ti Senhor. Tentamos reproduzir os momentos finais de seu filho entre nós e em nós. Mas aonde chegamos com isso. Vejo pessoas se golpeando com a chibata se dilacerando a pele. Outros se deixam amarrar durante horas a uma cruz. Retirantes carregam pesadas cruzes em suas costas debaixo do sol ou da chuva, aonde chegaremos com isso? Eu, não esportista, permito ser levado aos limites de minhas condições físicas buscando lembrar os últimos momentos de seu filho entre nós. Seu sacrifício na cruz. Aonde chegarei com isso?
Chego à compreensão de minha pequenez. Da minha incapacidade de te servir. Chego à compreensão de minha infidelidade em cumprir aquilo que o Senhor deseja de melhor a minha vida. Chego a ver minha desobediência por ação ou omissão e tantas outras vertentes que ocorrem. Oportunidades não aproveitadas. Oportunidades não criadas.
Que faço. Peço perdão. Coloco-me de joelhos e choro ante sua presença. Creio-te Deus misericordioso. Imploro perdoa-me. Perdoa-me. Permita-me ir aonde o Senhor quer me levar. Desejo chegar exatamente lá.
Meu corpo sofre, sofre frio. Sofre dores. Sofre fome. Meu corpo sofre. Mas em escala sofre em nano, ou seja, nada. E quem deseja esse nano sofrimento, eu não quero. Mas são dores de corpo. Penso nas dores de alma. Do sofrimento que eu sentia dentro, dores tão profundas que o descanso e o gelol não resolvem e parecem não ter cura. Dor interna, profunda e inatingível por quem quer que fosse. Mas, Você Pai me alcançou, no fundo do abismo que eu me encontrava. E agora, pergunto, que quer que eu faça? Aos médicos seus honorários. A ti minha vida.
O que falar a ti. Quero ir além das palavras. Quero ser. Ser como Você me deseja tornar. Ser o fruto de suas mãos em minha vida. Teu por completo. Todo teu Senhor. Sem ressalvas.
Te amo. Te sirvo. Te adoro. Te clamo. Te...
Que eu seja, segundo, ou mesmo terceiro. Porque você é e sempre será o primeiro em minha vida.
Ceflal – Brasília - 7 de julho de 2009

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Um dia difícil no Quilombo

Foi uma entrada difícil. A missão inicial era chegar até o vão do moleque, Welington, meu companheiro nessa viagem, também desejava visitar o quilombola Osaldo na região do tinguizal 1, não era exatamente caminho, mas, só nos desviaria no máximo duas horas da rota. Seria uma viagem de duração de no mínimo uma semana. E, como fazia tempo que não víamos Osaldo, e como não desejava caminhar só esta semana de pesquisa de rota, aceitei esse desvio. Mas, o pensamento que me veio à cabeça quando deitei a cabeça sobre o travesseiro somente quarenta e oito horas após ter saído foi; “Como é bom ter um teto sobre a cabeça. Como é bom ter um lugar para pousar a rede”.

Havia saído de casa, já com o coração receoso por saber que a canoa que usaríamos para atravessar o rio Paranã, havia virado no dia anterior. Ao chegar à localidade chamada funil, encontrei com Aleixo, quilombola da região da Contenda que se ofereceu a atravessar-nos, eu e o missionário Welington, para o outro lado do rio. Caminhamos uma hora além do ponto onde deixamos a moto para chegar ao local onde estava a canoa. O fato de estarmos de moto, nos economizou umas quatro horas de caminhada. Era o que normalmente eu gastava, para percorrer do ponto de ônibus até aquele local. Quando lá chegamos ouvimos os gritos de um quilombola que estava preso em uma pedra com a canoa virada no rio. Fiquei apreensivo em saber que os próximos a enfrentar o rio seriamos nós. O que fizemos após Aleixo ter socorrido o amigo.

A travessia foi feita de um a um, (…), os pouco mais de cem metros foram vencidos em intermináveis minutos na força da oração e em vigorosas remadas. Deixei minha mochila, assim que entrei na canoa, a uma distância que não poderia alcança-la caso ela virasse e assim não caísse na tentação de tentar salvá-la.

Infelizmente, pouco depois de vivermos a angustia que foi a travessia do rio, Welington machucou um dos pés. Nesse momento soube que nossa viagem havia terminado. Afinal, era o primeiro dia de sete. Consegui uma vara para que ele usa-se como apoio, ao caminhar e seguimos em frente, pois àquela hora do dia, não poderíamos fazer outra coisa, senão chegar ao nosso primeiro objetivo da viagem, que era a localidade chamada riachão. O que fizemos em aproximadamente três horas de caminhada, das quais metade dela sob a chuva e dentro de mata fechada.

A casa de Dona Procópia, nosso objetivo, levou-me ao filme Joe e as baratas, não por haver alguma coisa de cidade grande nela, e sim pelas baratas, que faziam uma procissão calmamente sobre a mesa, como se fizessem parte da família. O animalzinho de estimação. O café foi servido em xícaras esmaltadas, ou quase, que logo depois de colocadas sobre a mesa, as baratas cuidavam de sorver a sobra.

Dona Procópia, preparou uma das corvinas que haviamos adquido a beira do rio. Comemos peixe com quiabo, feito a parte, e o tradicional arroz sem tempero algum. A única coisa que desagradou um pouco na refeição foi o fato do missionário Welington ter me confessado a visão de uma barata caminhando sobre o arroz quando foi se servir. Digo isto, porque, o que os olhos não veem, o estômago não sente.

Dormimos do lado de fora da casa e no outro dia fomos visitar uma família amiga na região do Tinguizal, à uma hora de caminhada. Após a visita começamos nossa jornada de regresso, já que Welington estava com um dos pés ferido desde o dia anterior e confessou não ter condições de seguir adiante. O caminho de volta nos trouxe a emoção de conhecer novas trilhas. Acho que já disse que o que eles chamam de estrada, muitas vezes não é nem trilha, e o que eles chamam de trilha não sei bem o que é.

Na travessia da Contenda para o Lucio, entendi como se sente uma tartaruga quando é colocada de cabeça para baixo. Caí entre duas pedras e fiquei preso de pernas para o ar, esforçando-me inutilmente para me levantar, até que o Welington manquejando, transpusesse a pequena distância que nos separava para me socorrer. E lá estava eu, olhando para o alto. Minha mochila possuía uma armação de alumínio e o espaço entre as pedras, era o exato para aprisionar-me. Como consegui cair de costas, não me pergunte. Sei que havia resolvido passar pelas pedras por parecer um caminha mais limpo, enquanto Welington passava um pouco mais abaixo. Só que em algum momento tive que saltar de uma pedra a outra, e a umidade fez o resto do trabalho. O resultado da queda foram dois pequenos cortes na mão, uma pancada forte na perna e na costela, a sensação de tartaruga de barriga para cima, e agora ambos mancando, ele mais do que eu.

A travessia de volta do rio, foi feita de uma só vez. A canoa de Agripino maior do que a de Aleixo. Depois da travessia só restava subir na moto e voltar para casa. Teria sido ótimo se fosse simples assim, antes de chegarmos em casa ainda no quilombo teríamos uma queda da moto,ao chegarmos na estrada um dos pneus furou, como seria difícil conseguir carona para dois e uma moto, principalmente a noite, decidimos que eu voltaria a cidade para buscar a ajuda necessária. Tendo conseguido a carona em um caminhão, ao chegar a cidade, ao pular da carroceria deste, caí com o pé já machucado, dentro de um buraco, o que provocou uma lesão no tornozelo.

Ainda assim, graças ao bom Deus, rapidamente consegui o resgate para buscar o missionário Welington. Restou-nos apenas esperar as feridas se curarem para continuarmos nossa peregrinação pelo quilombo. Aprendi nessa última viagem, muitas palavras novas. E reconheço a necessidade cada vez maior de um colete salva-vidas. De fato, eu temo o Paranã. Também creio ser possível chegar ao Moleque em apenas três dias de caminhada. Foi incrível, ter chegado até o riachão apenas em um dia de viagem. Nunca havíamos feito isso anteriormente. A questão é que para encurtarmos o caminho, temos que sair da estrada e nos aventurarmos pelas trilhas. Que o Senhor nos ajude.

Natan e Simone.