Bem Vindo

Somos missionários da Igreja Cristã de Nova Vida.
Todos os textos e materiais disponibilizados aqui são de livre reprodução sem prévio aviso desde que não usado de forma comercial.
Desejando entrar em contato use o email: natan.paraguai@gmail.com
Desejando colaborar utilize o Banco Bradesco - Conta 2264-0 Agência 0876-1 Favorecido: Natanael Dias

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Da necessidade de Estatísticas Missionárias

 

Imaginei que passaria a escrever da ilha. No aeroporto o pastor perguntou como nos comunicaríamos. Em tom de gracejo o missionário respondeu: “que tal sinal de fumaça”.

Sorriram, se abraçaram, tiraram fotos. O missionário entrou no corredor de embarque com a certeza no coração de ambos de que não há barreiras a oração.

Contudo a barreira da falta de comunicação e o anseio da igreja por ela (comunicação) têm causado grandes danos à obra missionária. São tantos os rincões que é simplesmente impossível ao missionário se comunicar com a brevidade esperada, que gera na igreja uma sensação de desprezo e esquecimento, tal sensação não é quebrada por uma carta ou um breve telefonema a cada três meses já que não satisfaz o ímpeto por novidade.

Essa comunicação espaçada causa em período curto de tempo a ruptura no compromisso financeiro e quiçá em oração daqueles que falaram ao choro e com imposição de mãos: “Estamos indo com você. Está missão também é nossa”, e coisas do gênero.

Obviamente o fato de estar em uma aldeia indígena, ou em uma ilha, ou em algum rincão em qualquer lugar sem as facilidades da cidade grande, não serve de atenuante ao missionário, a igreja é alimentada por novidades, milagres e conversões, e que sejam breves. Esses fatos são que garante as orações e as remessas financeiras. Ao menos é assim que agem muitas das igrejas iniciantes em missões. Precisam de constantes estímulos para manter o compromisso firmado. Ruim, é quando essa pressão por correspondência parte das agencias missionárias. Solicitando minuciosos relatórios com números de visitas, pregações, conversas de cunho evangelístico, treinamentos, convertidos, etc., etc. E pra que tudo isso, para que ela própria, agencia missionária, tenha suas estáticas e possa manter seu sustento por esses números apresentados.

Caso o missionário seja louco e apaixonado por pregar o evangelho, (E, eu espero que o seja), seu melhor equipamento não será o conhecimento bíblico e um bom relacionamento com o povo alvo que o permita ser escutado, seu melhor equipamento será uma boa maquina fotográfica, um notebook, e a capacidade de se comunicar com as estáticas que comovam a igreja e mantenham o fluxo de remessas financeiras e quiçá de oração.

Em suma, a evangelização dos povos são números e não amor. Essa história de que uma “alma” não tem preço, é marketing de cartão de crédito.

Natanael Dias

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Quilombolas – Que Língua Eles Falam

Em se tratando de quilombolas kalungas, e está pergunta se refere aos kalungas, que é a etnia com a qual convivi no nordeste goiano. Penso que a pergunta ideal não é qual língua eles falam, mas a principio o que pensamos que ouvimos ou falamos.
marcia 01 Quando da minha chegada em novembro de 2002, acocorado na caçamba da D10, com crianças, mantimentos, arame farpado, olhava para os negros com estranheza e com estranheza era olhado. Apesar de negro também. Um dos quilombolas que ali estava, era conhecido do outro missionário e claramente fazia perguntas a meu respeito. Por incrível que pareça, eles falavam em português, e, eu nada entendia. Não era o mesmo português do Rio de Janeiro, mas, ainda assim português. Era outro ritmo na fala e outras palavras. Muitas das vezes as mesmas palavras e outros significados. E aí mora o grande perigo na comunicação. Não exatamente no que falamos, e sim no que eles ouvem. Não exatamente no que eles falam, mas, no que nós entendemos, ou pensamos que entendemos.
E com os kalungas, temos ainda o acréscimo de todo um gestual, e o gestual fala muito, e é preciso estar atento principalmente quando recebemos informações, que só nos é dada, quando claramente solicitadas.
Mas voltemos às palavras e seus significados. Principalmente porque o português, não é o português de hoje, e sim o de ontem, talvez não o do tempo das senzalas, mas com certeza, um que evoluiu muito mais lento do que os das grandes cidades, visto o isolamento ao qual eles se encontravam, ao menos até o final da década de 80 do século passado, ocasião em que foram descobertos, antropologicamente falando.
Sabemos que a língua é viva e em constante metamorfose. O significado de ontem, não será o mesmo de hoje, só que lá, o significado de ontem é exatamente o significado de ontem, só que ontem não é o da década passada, e sim um ontem bem mais distante. Uma coisa é certa, em uma de suas festas santas, pude ouvir o latin, não o falado em nossas igrejas católicas nos anos 70, mais um latin, transmitido de  rezador a rezador afinal de contas estamos falando de uma região que começou a ser povoada pelos negros nos meados do século XVIII, ou seja, se há vestígios de latin ali, só pode ter vindo da senzala.
Mas voltemos ao português, o que ouvimos: O missionário avisando que iria ter que voltar para sua cidade por um período ouviu a seguinte frase:
·         “Seu moço abusou de nós e agora vai embora!”.
O missionário de branco, torna-se vermelho tenta tirar satisfação e responde:
·         “Quem falou isso, quem disse que eu abusei de alguém aqui, eu nunca abusei de ninguém aqui não”.
Passa-se algum tempo e muito constrangimento para que ele entedesse que a sentença era:
·         “Você se cansou de nós. Você está enjoado daqui”.
O que nos falamos. O missionário pergunta ao quilombola: “Você já ouviu falar do paraíso?” ao qual o quilombola de pronto responde: “não sinhô, eu só fui até Alto Paraíso”. O missionário sorri. Alto Paraíso é uma cidade vizinha.
Deixo uma pergunta. Pense que está um sol de mais de 40º e você está no sertão goiano, andou mais de 06 horas, e ao chegar a casa a qual foi visitar, te pedem para escolher entre água ou chá de limão, qual você escolhe?
O que eles falam, e o que nos ouvimos. Certa ocasião observei o missionário mais experimentado questionar ao quilombola sobre um caminho menos difícil para a nossa casa. O quilombola falou: “é logo ali”, e começou a dar as devidas dicas para o nosso guia, que na ocasião era um menino de no máximo 12 anos. Estava atento as instruções e ouvi claramente quando o quilombola disse que não precisavamos subir nenhuma serra, só contornar. Pois bem, isso ainda era de manhã, talvez 09 ou 10 horas, quando por volta de 13:00h começamos a subir uma serra, em certo momento o guia se virou e nos disse: “Eu acho que estou perdido”, ao qual eu respondi, “você acha!, eu tenho certeza”.

Nesse dia chegamos por volta das 19:00hs em casa. Isso porque tentamos fugir de uma escalada de aproximadamente meia-hora. A nossa falha de comunicação, foi que só depois que o quilombola falou é logo ali, é que o missionário chamou o menino para receber as instruções, e ao falar logo ali, o quilombola fez biquinho, e essa foi a falha do missionário. Um logo ali com biquinho, é um logo ali bem longe. Então a dificuldade não é exatamente a língua que eles falam, e sim a língua que escutamos ou que eles escutam.
Que Deus ajude aos seus missionários por aí afora a vencer as barreiras culturais.